Abril Marrom – Mês de Combate à Cegueira

Perda da visão atinge milhares de brasileiros, mas pode ser evitável

 

A Sociedade Mineira de Oftalmologia (SMO), em parceria com a Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), alerta para o combate à cegueira com o ‘Abril Marrom‘, mês que marca a campanha. Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o Brasil possui 1,2 milhão de cegos. São mais de seis milhões de brasileiros com alguma deficiência visual, com causas variáveis. De acordo com o diretor da SMO, Luiz Carlos Molinari, na maioria dos casos, a perda da visão poderia ter sido evitada com prevenção e diagnóstico precoce, além de manter um acompanhamento com o médico oftalmologista. “Especialmente durante a pandemia da Covid-19 os cuidados com a saúde dos olhos não devem ser negligenciados”, explica.

Molinari orienta que a atenção com a saúde ocular deve acontecer durante todas as fases da vida, desde a gestação, com o pré-natal, os cuidados do recém-nascido (incluindo infecções congênitas, conjuntivites), infância (estrabismo, erros de refração-miopia, hipermetropia, astigmatismo), passando pela vida adulta até a velhice. “Outros problemas requerem maior cuidado, como pacientes que usam lentes de contato, têm miopia, glaucoma, ou passaram por cirurgia retrativa, por exemplo.”

O especialista ainda lembra que portadores de retinopatia diabética têm 40% de chances de ter glaucoma, e 60% de desenvolver catarata; e pacientes com degeneração macular relacionada à idade (DMRI), que é uma perda progressiva da visão central, e a catarata, condição comum que ocorre com o envelhecimento. “Nesses casos, as consultas com o oftalmologista devem ser regulares, para acompanhamento, e não apenas visitas anuais.” Outras doenças podem ser diagnosticadas e tratadas através do exame ocular: hipertensão arterial, tumores, disfunções da tireoide, hanseníase, tuberculose, toxoplasmose, doenças reumáticas, Aids, lúpus, além das citadas acima.

O especialista também alerta a população para o cuidado necessário com as terapêuticas oferecidas no mercado, que prometem a cura de doenças oftalmológicas por meio de métodos duvidosos, além da atuação de profissionais não médicos no cuidado da visão. Ele reforça “a importância dos oftalmologistas para: diagnosticar, prescrever tratamento, acompanhar e orientar adequadamente o paciente quanto às suas necessidades oculares”. Especialmente, durante a pandemia, oriente-se previamente sobre como será a sua consulta e os seus exames e compareça!

O que você pode fazer para evitar problemas oculares:

– Alimentação: balanceada e adequada à sua rotina, incluindo alguns desses alimentos nas refeições e nos lanches: frutas vermelhas e cítricas, cenouras, folhas verdes, ovos, e peixes ajuda a evitar problemas na visão.

– Não fume. O tabagismo contribui para uveítes, degeneração macular relacionada à idade (DMRI), síndrome do olho seco, catarata, etc.

– Não tome sol sem proteção. O uso de óculos de sol com proteção anti-UVA/UVB deve ser adotado já na primeira infância. Os raios UVA e UVB são cumulativos e podem levar ao câncer da membrana mucosa e transparente, a conjuntiva, que reveste e protege o globo ocular, além de seu espaçamento e fibrose (pterígio) e, ainda, inflamação da córnea, catarata, degeneração do vítreo e queimadura da retina com deterioração da visão central.

– Evite o uso excessivo de celulares, tablets e computadores, pois eles reduzem a produção de lágrimas (olho seco) e alteram o foco. O uso mais constante da visão de perto pelas crianças tem aumentado a prevalência da miopia.

– Evite colírios contendo vasocontritor ou corticoide sem indicação médica.

– Use protetores para evitar traumas oculares nas tarefas domésticas e no trabalho e reforce o cuidado com as crianças, pois os acidentes são mais frequentes no domicílio.

– O sono adequado pode contribuir para a fadiga ocular, que leva a irritação nos olhos, dificuldade de acomodação,olho seco ou lacrimejamento, visão turva e sensibilidade à luz. Procure dormir por sete horas e em ambiente com nenhuma ou baixa luminosidade.

– Agende uma consulta com o médico oftalmologista, sempre que necessário.

Sabe aquele brilho vermelho, geralmente indesejado, que preenche as pupilas, vez ou outra em fotos? Ele é causado pelo reflexo de estruturas que existem no “fundo de olho”, como retina, cabeça do nervo óptico e, em menor escala, coróide. A inspeção de tais estruturas é o “exame de fundo de olho”.

A forma mais simples e tradicional, mas também a mais limitada, de examinar o fundo de olho é a observação a partir do Oftalmoscópio Direto. Eventualmente, Pediatras, Clínicos Gerais e Neurologistas também fazem uso deste instrumento.

Oftalmoscópio Direto.

Visualização, bem mais rica em detalhes, pode ser alcançada por meio da Oftalmoscopia Binocular Indireta e da Biomicroscopia de Fundo. Estas modalidades são complementares uma à outra, sendo realizadas exclusivamente por Oftalmologistas.

Formas de visualização do “Fundo de Olho”: A) Oftalmoscopia Binocular Indireta; B) Biomicroscopia de Fundo.

Muitas doenças oculares podem ser diagnosticadas, ou terem a evolução clínica supervisionada a partir do exame de fundo de olho, por exemplo: Degeneração Macular Relacionada à Idade, Descolamento de Retina ou Glaucoma, entre outras. O mesmo ocorre para manifestações oculares de doenças como Diabetes Mellitus ou Hipertensão Arterial.

A partir dos achados clínicos do exame de fundo de olho, exames específicos a cada caso podem ser solicitados.

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

Os desafios impostos pela pandemia da Covid-19 à educação médica exigem novas estratégias pedagógicas para a formação de profissionais éticos, humanistas, críticos e reflexivos. Estas estratégias estão centradas no ensino remoto, utilizando plataformas digitais de educação a distância. Houve adaptações ao modelo EAD, conhecido como Ensino Remoto Emergencial (ERE). Neste, utiliza-se recursos online de modo não planejado, desconsiderando aspectos importantes da realidade de estudantes e professores, bem como aspectos pedagógicos e tecnológicos envolvidos. Há necessidade de envolvimento dos professores com o processo pedagógico, planejamento das atividades e a identificação de meios apropriados. Não há consenso sobre a inserção dos estudantes nas atividades práticas. Evidenciou-se a existência da educação a distância mesmo antes da pandemia e vinculação com a prática da telemedicina, e a necessidade de os currículos incluírem disciplinas de gerenciamento de pandemia com foco na saúde pública.

A educação médica baseia-se, essencialmente, nas habilidades de conhecimento, comportamento e comunicação, a ser desenvolvidos nos estudantes. O conhecimento e a aprendizagem profunda exigem, ativamente, a interação professor-aluno em ambiente propício, difíceis de cultivar sem a interação aluno-paciente em tempo real; o ensino didático em sala de aula, com apresentações e aprendizagem no leito têm sido amplamente substituídos pelas plataformas online, autodirigidas. Mas o contato direto do professor-aluno e o feedback bidirecional em tempo real são difíceis de replicar em fóruns online.

Identificaram-se omissões acerca das limitações e fragilidades dessa nova estratégia pedagógica: a falta de acesso universal e igualitário aos meios digitais, a desconsideração de realidades minoritárias e subdesenvolvidas e a desvalorização das relações interpessoais essenciais à formação médica. Embora este formato de ensino-aprendizagem não seja fácil para alunos com baixa motivação e de baixos estratos socioeconômicos, por falta de equipamentos e conectividade, a adaptação a essas novas mudanças na educação médica é o único caminho a seguir.

Envolver os alunos em telemedicina, desde triagem por telefone até visitas eletrônicas e de acompanhamento e consultas, pode ajudar a preencher a lacuna na educação médica e na interação paciente-aluno. Teleconferências e workshops virtuais não podem substituir o treinamento clínico prático, e essa forma totalmente nova de aprendizado pode servir como uma opção aceitável em tempos de pandemia.

As escolas médicas têm o dever de fornecer educação continuada e possibilitar a formação dos futuros médicos. O ensino virtual é eficaz e as instituições estão trabalhando para desenvolver ainda mais esses recursos, para melhorar o envolvimento e a interatividade dos alunos. No futuro, as faculdades de medicina deverão adotar uma abordagem mais holística para a educação, e considerar o impacto mental da Covid-19 sobre os alunos, bem como melhorar a segurança e a tecnologia das plataformas virtuais.

A pandemia trouxe ansiedade, um aumento dos compromissos de trabalho, com redução significativa no tempo de recuperação e impacto da doença nos colegas médicos e familiares, associados aos estressores econômicos, sociais, isolamento e pressões sociais. Os profissionais de saúde e estagiários foram desafiados cognitiva e emocionalmente pela morbidade e mortalidade ocorrendo em um curto e súbito período de tempo. Devemos estimular empatia e bem-estar emocional para todos, praticadas pelas instituições, programas patrocinadores e professores.

A Organização Mundial da Saúde observou que os profissionais de saúde têm um risco aumentado de problemas de saúde mental, não apenas devido ao sofrimento emocional do isolamento social, mas também devido à exposição à morte e à doença, à escassez de pessoal e de Equipamentos de Proteção Individuais (EPI’s), e ao sofrimento moral no cuidado aos pacientes.

Há relatos de burnout, ansiedade, sensação de impotência, medo e tristeza. Investiu-se nas mentorias (e-mentoring), muito valorizadas pelos mentores e mentorandos, com um apelo muito forte na saúde mental. Os encontros têm acontecido entre os mentores, com bagagem teórica sólida, aliada a uma experiência prática extensa e bem sucedida na área que será debatida, e os alunos, mentorandos, que buscam novos conhecimentos e habilidades. Não há aulas expositivas, mas sim discussões horizontais, e os participantes expressam suas opiniões e questionam quais as melhores estratégias para resolução de problemas. As reflexões se impõem, estimuladas por vídeos de curta duração, podcasts,e outros. Este aprendizado ativo, baseado em problemas reais, aproxima teoria e prática. Embora os alunos se sintam substancialmente sobrecarregados e preocupados com o impacto da pandemia em seus estudos, parecem lidar bem com o formato do curso digital.

A motivação para estudar durante a pandemia da Covid-19 diminuiu entre a maioria dos alunos, o que deve ser abordado pelas escolas médicas interessadas em desenvolver intervenções eficazes, para apoiá-los na pandemia e no ensino online contínuo.

O peso total da carga de saúde mental sobre os profissionais de saúde e estagiários ainda não é conhecido, mas provavelmente será significativo.

 

*Artigo publicado por Luiz Carlos Molinari Gomes – Oftalmologista associado à SMO.

De 8 a 14 de março aconteceu a semana Mundial do Glaucoma. Oftalmologistas alertam sobre a doença que é a principal causa de cegueira irreversível no mundo. Ela é crônica, danifica o nervo ótico e envolve a perda de células da retina responsáveis por enviar os impulsos nervosos ao cérebro.

O diretor da Sociedade Mineira de Oftalmologia (SMO), Luiz Carlos Molinari, explica que o Glaucoma é causado pela alta pressão ocular. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 10% dos casos de cegueira no mundo são ocasionados por esse mal. “O Glaucoma é silencioso, não apresenta sintomas. É preciso ficar atento e procurar um especialista se houver casos da doença na família.” De acordo com Molinari, é necessário desde cedo fazer um acompanhamento, uma vez que se não for tratado, pode levar à cegueira irreversível. Ele destaca ainda que, embora não se consiga afirmar exatamente por que uma pessoa desenvolve o glaucoma, estudos mostram que ele é mais frequente em pessoas:

  • idade avançada;
  • hipertensão arterial (pressão alta);
  • miopia elevada (graus muito altos de miopia);
  • histórico de glaucoma na família;
  • diabetes;
  • lesões oculares;
  • raça negra.

O glaucoma pode ser:

  • Congênito: presente no nascimento, os recém-nascidos apresentam globos oculares aumentados e córneas embaçadas;
  • Secundário: ocorre após cirurgia ocular, catarata avançada, uveítes, diabetes, traumas ou uso de corticoides;
  • Crônico: costuma atingir pessoas acima de 35 anos de idade. Uma das causas pode ser obstrução do escoamento de um líquido que existe dentro do olho chamado humor aquoso. No glaucoma crônico, os sintomas costumam aparecer em fase avançada, isto é, o paciente não nota a perda de visão até vivenciar a “visão tubular”, que ocorre quando há grande perda do campo visual (perda irreversível).

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, aproximadamente 3% da população brasileira acima de 40 anos apresentam Glaucoma. “Somente o exame cuidadoso dos olhos – o que inclui a aferição da pressão intraocular e o exame de fundo de olho, – realizado por um médico oftalmologista, é capaz de detectar o glaucoma. O tratamento é feito com uso regular de colírios. Em alguns casos, aplicações de laser ou mesmo cirurgias podem ser necessárias para deter o avanço da doença.”

O tratamento também vai variar conforme o tipo de Glaucoma, que pode ser de ângulo aberto ou fechado. O primeiro é mais comum e não costuma apresentar sintomas, além da perda gradativa da visão. Já o de ângulo fechado são casos mais raros e graves, que precisam de emergência médica e vêm acompanhados de dores oculares, náuseas e distúrbios da visão. Consulte seu oftalmologista periodicamente, e faça a prevenção do glaucoma. Molinari orienta que é preciso procurar o oftalmologista se apresentar:

  • dores nos olhos;
  • visão distorcida;
  • aureolas de arco-íris ao redor das luzes;
  • dor de cabeça, náusea e vômito.

 

Fonte: Sociedade Mineira de Oftalmologia (SMO) e Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

É bem provável que ao observar os olhos de alguém, com 50 anos ou mais, você tenha notado um halo claro circundando a parte colorida dos olhos, é o chamado Arco Senil. Formado pela deposição de colesterol na córnea, o Arco Senil não traz prejuízos à visão, não necessitando de tratamento.

Observe o halo claro na periferia corneana, é o Arco Senil.

Caso esteja presente em pessoas mais jovens, pode significar que os níveis sanguíneos de colesterol e de outras gorduras encontram-se anormalmente altos. Como ocorre em outras ocasiões, um achado ao exame Oftálmico de rotina, pode ajudar na detecção ou acompanhamento de condições clínicas do(a) paciente.

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

Muitas pessoas imaginam que caso alguém passasse consecutivamente por dois “Exames de Grau” (ou Refratometria), com intervalos de poucos dias a poucas semanas entre esses exames, os resultados seriam idênticos. Principalmente, no caso de o(a) Oftalmologista ser o(a) mesmo(a). No entanto, isto não é bem assim.

A Refratometria consiste de duas etapas:

1) Fase objetiva: conduzida pelo(a) Oftalmologista, na qual diagnosticam-se e quantificam-se eventuais erros de refração (miopia, astigmatismo ou hipermetropia);

2) Fase subjetiva: os achados do(a) Oftalmologista são apresentados a(o) paciente, a quem cabe refiná-los de acordo com preferências pessoais. Quanto maior a assertividade do(a) paciente nesta etapa, mais confiáveis os resultados.

Ambas as etapas estão sujeitas a pequenas variações de mensuração e análise. Disto, podem resultar pequenas diferenças entre exames consecutivos. A essas diferenças, podem somar-se modificações consistentes nas ametropias, caso o intervalo entre os exames seja significativo, como de um ano para o outro.

A Refratometria pode ser realizada com ou sem o uso dos colírios, conforme o caso. Falaremos sobre isso adiante.

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

Quando o assunto é “Cirurgia da Miopia” como alternativa ao uso de óculos ou lentes de contato, as pessoas costumam ter em mente a correção a laser. Tal procedimento, como regra geral, costuma ser indicado para pacientes com córneas normais e miopia de, no máximo 10 “graus”, ou mais apropriadamente, 10 dioptrias.

No entanto, há pacientes que apresentam miopias bem acima de 10 dioptrias, ou cujas córneas não sejam ideais para a correção a laser. Para esses pacientes, a melhor alternativa cirúrgica pode ser a indicação das chamadas “Lentes Fácicas”, as quais são implantadas dentro dos olhos.

Tal cirurgia difere da cirurgia de catarata, por não envolverem o cristalino. O que ocorre, é que se implantam lentes específicas para alto míopes anteriormente, ou posteriormente à íris, a depender do modelo indicado. O procedimento é considerado seguro e eficaz, além de preservar a córnea nos casos em que a ocorrência de ceratocone não pode ser descartada, podendo ser reversível, com a retirada das lentes, caso necessário.

Lente Fácica posicionada anteriormente à íris.
Lente Fácica posicionada posteriormente à íris.

Mais recentemente, lentes para correção do astigmatismo, com ou sem miopia ou hipermetropia, também foram desenvolvidas. Falaremos sobre o assunto em breve.

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

Os termos Glaucoma e “Pressão Alta nos Olhos” costumam gerar alguma confusão para boa parte dos pacientes. Simplificadamente, por glaucoma entende-se um grupo de doenças, que têm em comum um mesmo padrão de lesão do nervo óptico, o chamado dano glaucomatoso. A pressão interna dos olhos, ou pressão intraocular, é um parâmetro clínico mensurável, de interesse à avaliação Oftálmica de rotina, como as avaliações da pressão arterial, peso, ou da temperatura corporal para outras áreas da Medicina.

A confusão é aprofundada quando se tenta definir o que seriam níveis elevados de pressão intraocular. Tradicionalmente, admitem-se como normais, as pressões entre 10 e 21 milímetros de mercúrio (representados por mmHg). No entanto, há pacientes com pressões abaixo de 21 mmHg que são portadores de glaucoma; bem como, há quem tenha pressões maiores que 21 mmHg, sem qualquer sinal de dano glaucomatoso. Assim, uma pressão intraocular de 18 mmHg, por exemplo, pode ser “alta” para uma pessoa e “normal” para outra. Por outro lado, quanto mais elevada a pressão intraocular, maiores as chances de que a pessoa desenvolva lesão glaucomatosa.

Ressalta-se que o tratamento do glaucoma baseia-se na redução da pressão intraocular, qualquer que seja ela.

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

As lentes de contato gelatinosas filtrantes são lentes com colorações específicas utilizadas para melhorar o desconforto ocular ocasionado por uma fotofobia e/ou glare incapacitantes, bem como para melhorar a discriminação de cores por pacientes com discromatopsias eixo vermelho-verde¹.

Diferente das lentes coloridas cosméticas, o padrão de distribuição da pigmentação deve abranger a área pupilar e a estética não é o objetivo primário. As lentes gelatinosas coloridas cosméticas além de não resolverem a questão da fotofobia incapacitante, podem diminuir a performance visual pelo aumento das aberrações de alta ordem².

Fotofobia por definição seria a sensação de desconforto ocular ocasionado pela luminosidade³. Pode ser proveniente de alterações em várias estruturas oculares como por exemplo:

  • Corneanas: cicatrizes, ceratocone, olho seco, astigmatismo;
  • Cristalinianas: catarata subcapsular posterior;
  • Irianas: aniridia, colobomas;
  • Trato uveal: uveíte;
  • Retinianas: distrofia de cones, acromatopsia, stargardt, etc;
  • Causas extraoculares⁴: cefaléias, sequelas de TCE, blefarospasmo.

As causas retinianas são as mais propensas em causar uma fotofobia incapacitante até mesmo em ambientes internos. O desconforto chega ao ponto de comprometer atividades básicas da vida diária, socialização e até vida laboral. Nestes casos, a indicação e adaptação de lentes de contato gelatinosas filtrantes representa a possibilidade de resgate de uma melhor qualidade de vida.

São indicações para a adaptação de lentes de contato filtrantes gelatinosas:

  • Discromatopsias eixo vermelho-verde⁵
  • Distrofias de cones6
  • Acromatopsia7
  • Albinismo
  • Stargardt

Como em todas as adaptações de lente de contato, o paciente deve realizar um exame oftalmológico completo e posterior selecionar e realizar o teste da lente de contato.

Para fins didáticos dividiremos as adaptações em 2 grupos:

a) Pacientes com fotofobia incapacitante

  • Adaptação feita em ambos os olhos
  • Colorações possíveis: marrom e vermelha

b) Pacientes com discromatopsias eixo vermelho-verde

  • Geralmente adaptação monocular no olho não dominante, porém pode ser binocular. Realizar teste de cores sem lente e com lente de contato para comparação.
  • Coloração: vermelho

O vermelho melhora a fotofobia por apresentar ondas com maior comprimento e menor frequência. Isto contribui para menor desestabilização do pigmento presente nos bastonetes quando expostos a luminosidade.

A indicação das lentes de contato gelatinosas filtrantes deve ser individualizada. Esclarecimentos diminuem expectativas fantasiosas e aumentam o sucesso na adaptação.

Na adaptação, realiza-se um teste com a coloração escolhida em ambientes internos e externos. Deve-se mostrar as alterações estéticas decorrentes desta utilização. Sempre mensurar a acuidade visual com e sem lente, já que podem ocorrer reduções da acuidade visual e contraste.

Como todas as lentes de contato, a adaptação é um ato médico. Necessita ser precedida de um exame oftalmológico completo e ser acompanhada com controles periódicos.

 

*Artigo publicado por Mylene Matsuhara – Oftalmologista associada à SMO.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. Matsuhara ML. Adaptação de Lentes de Contato em Visão Subnormal. In: Godinho C, Dantas B, Sobrinho M, Polisuk P.O Padrão CG em Lentes de Contato.2 ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica/Guanabara Koogan;2010
  2. Hiraoka T, Ishii Y, Okamoto F, Oshika T. Influence of cosmetically tinted soft contact lenses on higher-order wavefront aberrations and visual performance. In: Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol 2009 Feb:247(2)225-33
  3. Sei M. Estudo da Sensibilidade ao Contraste, do Glare e do Campo Visual na Baixa Visão. In: Sampaio MW, Haddad MAO, Costa Filho HA, Siaulys MOC. Baixa Visão e Cegueira- Os Caminhos para a Reabilitação, a Educação e a Inclusão.1ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica/Guanabara Koogan;2009
  4. Katz BJ, Diare KB. Diagnosis, pathophysiology, and treatment of photophobia. In: Surv Ophthalmol.2016 Jul-Aug;61(4):466-77
  5. Mutilab HA, Sharanjeet-Kaur, Keu LK,Choo PF. Special tinted contact lens on colour-defects. In: Clin Ter.2012:163(3):199-204
  6. Park WL, Sunness JS. Red contact lenses for alleviation of photophobia in patients with cone, disorders. In: Am J Ophthalmol 2004 Apr;137(4);774-5
  7. Schornack MM, Brown WL, Siemsen DW. The use of tinted contact lenses in the management of achromatopsia. In: Optometry.2007 Jan;78(1); 17-22

No dia 16 de setembro, fora publicado numa importante revista médica (JAMA Ophthalmology) um artigo científico que mostrou que de 276 pacientes internados num hospital da província chinesa de Hubei para tratamento de COVID-19, apenas 16 deles (5,8%) usavam óculos por 8 horas, ou mais, por dia, em decorrência de miopia. Nesta região da China, cerca de 30% da população é míope, assim seria intuitivo esperar que cerca de 30% dos pacientes internados fossem míopes.

Ao menos teoricamente, o uso de óculos poderia resultar numa barreira adicional à entrada do novo Coronavírus no organismo. Isto porque a conjuntiva é uma superfície mucosa, a qual é menos eficiente que a pele, por exemplo, na contenção à entrada de micro-organismos, entre os quais, os vírus. Além disto, parte da lágrima é drenada da superfície dos olhos para interior do nariz, o qual também é uma superfície mucosa, podendo atuar como mais uma via de entrada para o novo Coronavírus.

No entanto, inúmeros são os exemplos em Medicina para os quais uma possibilidade não se confirma na prática. O que se sabe até agora é que higienizar as mãos (ao lavá-las bem ou a partir do uso de álcool gel a 70%), fazer uso adequado de máscaras e evitar aglomerações são as medidas mais importantes a serem tomadas em termos coletivos. Especificamente aos profissionais de saúde, no manuseio de pacientes com COVID-19, como parte dos equipamentos de proteção individual, o uso de óculos de proteção é recomendado.

A dúvida que naturalmente surge a partir da observação mostrada neste estudo é se o uso de algum tipo de óculos deveria ser recomendado a todas as pessoas. Uma resposta criteriosa deve levar os seguintes pontos em consideração:

  • Correlação não implica em causa, ou seja, não significa que usar óculos seja necessariamente a causa da menor taxa de infecção entre míopes;
  • O desenho do estudo não é o mais apropriado para generalização das conclusões, fator reconhecido pelos próprios autores.

Em meio a uma pandemia cujos efeitos, em maior ou menor grau, são sentidos por todos, informação científica que auxilie no combate ao Coronavírus são muito bem-vindas. No entanto, a interpretação de tais informações também deve seguir o mesmo rigor científico. Do contrário, corremos o risco de abrirmos mão da Medicina baseada em evidências, em favor da Medicina de outros tempos…

 

*Artigo publicado por Giuliano Freitas – Oftalmologista associado à SMO.

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